E então eu a ouvi.
“Depressa, depressa… tranque a porta!”
Era a voz de Lily.
Um arrepio percorreu minha espinha. Não era mais a voz calma que me dissera naquela manhã: “Até logo, mãe”. Agora soava baixa, tensa, como a voz de alguém que vive com medo de ser descoberto.
Ouvi a tranca da porta da frente deslizar e fechar, seguida pelo baque de várias mochilas caindo no chão da entrada.
“Não faça barulho”, ela sussurrou novamente. “Minha mãe só volta às seis.”
Uma risada nervosa quebrou o silêncio e, imediatamente, vários passos se dirigiram para o quarto dela.
Meu coração começou a bater tão forte que eu conseguia senti-lo na garganta. Eu estava prestes a sair debaixo da cama para exigir respostas, mas algo na voz de Lily me fez parar.
Ela não parecia uma adolescente pregando uma peça.
Ela parecia carregar um peso enorme nos ombros.
A porta do quarto abriu-se lentamente.
Vi quatro pares de sapatos entrarem: um par de tênis velhos, um coberto de lama seca e outro tão gasto que as meias estavam à mostra.
Lily foi a última a entrar. Fechou a porta com cuidado, puxou as cortinas e o quarto ficou envolto numa luz fraca e tênue.
“Sente-se no chão”, disse ela calmamente. “Ninguém conseguirá vê-la pela janela daqui de baixo.”