O som da chuva fustigava as vidraças blindadas do escritório no décimo andar, um contraste irônico com o silêncio mortal que dominava o ambiente. Rogério estava sentado na poltrona de couro importado, o suor frio escorrendo pela testa, enquanto encarava a tela do computador. A cada clique, o império que ele levara anos para construir — erguido sobre traições, subornos e a ruína de quem um dia o chamou de irmão — desmoronava como um castelo de cartas na areia.
As contas offshore estavam zeradas. Os contratos milionários, cancelados por cláusulas de rescisão ocultas que ele mesmo assinara sem ler os miúdos, cego pela ganância. E, pior de tudo, os documentos que provavam seus crimes financeiros e a responsabilidade direta pela morte civil e moral de Beatriz estavam agora nas mãos da justiça e, o que era mais aterrorizante, na caixa de entrada de todos os principais veículos de imprensa do país.
— Procurando por algo, Rogério?
A voz suave, porém gélida, cortou o ar como uma lâmina afiada.
Rogério sobressaltou-se, virando-se abruptamente na cadeira. Das sombras da antessala escura, Beatriz emergiu. Ela vestia um terno preto impecável, o olhar carregado de uma calma aterrorizante, um contraste absoluto com o desespero estampando o rosto trêmulo do homem que um dia tentara destruí-la.
— Você… Você não pode estar aqui! — gaguejou Rogério, tateando a gaveta da escrivaninha à procura da arma de fogo que guardava ali. Mas a gaveta estava vazia. Ele a puxou com força, frustrado, encontrando apenas o eco do vazio.
— Procurando isto? — Beatriz ergueu um pequeno revólver prateado, girando-o levemente entre os dedos antes de guardá-lo na bolsa. — Acha mesmo que eu seria descuidada a ponto de deixar você armado em nosso encontro final? Por favor, Rogério. Você nunca foi tão inteligente quanto imaginava. Apenas implacável com os fracos. Pena que hoje o fraco é você.
Rogério levantou-se de supetão, as pernas bambas, a máscara de superioridade que ostentara por anos completamente estilhaçada.
— O que você fez? — ele sibilou, avançando um passo antes de recuar diante do olhar implacável dela. — Você destruiu tudo! Anos de trabalho! Minha vida!
— A sua vida? — Beatriz soltou um riso curto, seco, destituído de qualquer resquício de humor. — A sua vida nunca existiu, Rogério. Era apenas uma farsa construída sobre o sangue e as lágrimas de quem você pisou para subir. Você roubou minha empresa, difamou meu nome, empurrou meu pai para a sepultura com suas chantagens… E achou que sairia impune? Que eu passaria o resto dos meus dias chorando nos cantos?
— Eu podia ter te dado uma porcentagem! Um acordo! — gritou ele, a máscara caindo de vez, revelando o covarde patético escondido sob a fachada de magnata.
— Eu não quero a sua porcentagem, Rogério. Eu quero exatamente o que você me tirou: tudo. — Beatriz aproximou-se da mesa, apoiando as pontas dos dedos na madeira escura, encarando-o de cima. — Cada centavo que está aí foi congelado. Os tribunais já expediram seu mandado de prisão preventiva por fraude, lavagem de dinheiro e conspiração. A polícia federal está a cinco minutos daqui. Quando chegarem, você não terá um tostão sequer para pagar um advogado de porta de xadrez. Seus “amigos” já bloquearam seus números. Para eles, você já está morto.
O desespero transformou-se em pânico absoluto no rosto de Rogério. Ele caiu de joelhos diante dela, as mãos trêmulas estendidas em uma súplica patética.
— Beatriz… Por favor! Pelo que fomos um dia… Lembre-se de nós, do tempo em que…
— Não ouse — interrompeu ela, a voz cortante como vidro quebrado, fazendo-o recuar instantaneamente. — Não ouse profanar o passado com essa sua boca mentirosa. O que fomos morreu no dia em que você assinou minha sentença de falência e sorriu enquanto me expulsava daqui.
As sirenes começaram a ecoar lá embaixo na rua, cortando a noite chuvosa com seus tons estridentes e implacáveis. Luzes vermelhas e azuis começaram a piscar nas paredes do escritório, refletindo-se no rosto pálido de Rogério.
Beatriz endireitou o corpo, ajeitou a gola do terno e deu meia-volta, caminhando em direção à porta com passos firmes e decididos. Antes de atravessar o batente, ela parou por um segundo, sem olhar para trás:
— Aproveite a descida, Rogério. O inferno é frio, mas pelo menos lá embaixo você não precisará fingir ser quem não é.
A porta fechou-se com um clique abafado, deixando-o sozinho no escuro, cercado pelas sirenes que se aproximavam cada vez mais, enquanto o seu império de mentiras virava cinzas na imensidão da tempestade.