O som da madeira estalando sob a força do empurrão fez o meu sangue ferver nas veias. A porta da frente abriu-se de supetão, revelando a silhueta alta e esguia de Sergio na penumbra do hall. Ele já não exibia aquela máscara polida de “bom rapaz” que costumava usar nas reuniões de família. O seu rosto estava totalmente desfigurado por uma expressão fria, calculista e profundamente sádica.
— “Ora, ora, Rodrigo…”, começou ele, com aquela voz aveludada que agora soava como o sibilar venenoso de uma serpente. — “Parece que decidiste meter-te onde não és chamado. Dá-me a miúda. Ela sabe muito bem que me pertence e que não deve desobedecer-me.”
Reagan apertou-se ainda mais contra as minhas costas, tremendo como uma folha ao vento. Os seus dedinhos finos agarravam-se à minha camisola com tanta força que os nós dos seus dedos estavam completamente brancos.
— “Tu não vais tocar num único fio de cabelo dela, seu miserável”, rosnei, sentindo uma fúria cega tomar conta de cada músculo do meu corpo.
Dei um passo em frente, postando-me como um escudo intransponível entre ele e a minha sobrinha.
Sergio soltou uma gargalhada curta, seca e profundamente desdenhosa, dando mais dois passos decididos para o interior da casa. Os seus olhos varreram a sala com um desprezo olímpico.
— “Tu achas mesmo que tens alguma autoridade aqui, Rodrigo? A tua irmã é completamente dependente de mim. Financeiramente, emocionalmente, em tudo. Ela obedece-me de olhos fechados. E esta pequena…”, apontou para Reagan com um dedo acusador, — “… é apenas um animalzinho que precisa de ser adestrado. Se não aprendem pelo amor, aprendem pela fome. É a única linguagem que compreendem.”
As palavras dele caíram como ácido corrosivo sobre a minha pele. A ânsia de justiça sumária estremeceu os meus punhos. Mas foi nesse preciso instante, ao fixar o olhar no rosto do agressor, que eu reparei no detalhe macabro que me tinha escapado: na gola da camisa dele havia uma mancha escura de terra, indicando que ele vinha a espiar-nos pela janela lateral há muito mais tempo do que imaginávamos. E na mão direita, ele segurava um pequeno objeto metálico pronto a ser acionado.
Contudo, antes que Sergio pudesse dar mais um passo em direção a nós, a porta da cozinha nas traseiras abriu-se com um estrondo ensurdecedor.
Paula irrompeu pela divisão escura, com o rosto banhado em lágrimas convulsivas, mas os olhos a faiscarem uma determinação animalesca. Nas mãos, ela segurava com ambas as forças o pesado taco de basebol que eu guardava no armário de arrumações.
Sergio sobressaltou-se violentamente, virando-se para trás a meio passo.
— “Paula?! O que diachos…?”, balbuciou ele, perdendo pela primeira vez a compostura arrogante.
A minha irmã não hesitou nem por um segundo milimétrico. Com um grito primitivo que ecoou pelas paredes da casa, Paula desferiu um golpe brutal com o taco de basebol diretamente contra o ombro de Sergio. O impacto seco estalou na sala, fazendo o homem soltar um berro agudo de dor e desequilibrar-se desajeitadamente sobre o aparador de madeira, derrubando abajures e molduras.
— “Isto é por tudo o que fizeste à minha filha, seu monstro do caralho!”, gritou Paula, com a voz embargada por um ódio profundo, antigo e incontido.
Sergio tentou erguer-se do chão, contorcendo-se com o braço pendente e a expressão distorcida pelo pavor absoluto. Mas eu já me tinha adiantado. Agarrando-o pelo colarinho da camisa com uma força descomunal alimentada pela adrenalina, levantei-o do ar como se ele não pesasse nada e empurrei-o com violência contra a parede, encostando o meu antebraço com força contra a sua garganta, cortando-lhe instantaneamente a respiração.
— “Gostas de privar os outros, não é, Sergio?”, sussurrei junto ao seu ouvido, a minha voz fria como o gelo ártico. — “Gostas de ver os outros a suplicar por migalhas e a pedir autorização para respirar?”
Ele tentava balbuciar algo ininteligível, com os olhos arregalados de terror, as mãos arranhando o meu braço em vão, enquanto o rosto ficava roxo pela falta de oxigénio.
Paula aproximou-se devagar, com o taco de basebol a arrastar-se pelo chão, deixando um som macabro no parquet. Ela olhou para a pequena Reagan, que continuava a observar tudo de boca aberta, e depois fitou o homem que havia envenenado a sua vida e destruído a inocência da sua filha com requintes de crueldade psicológica.
— “A polícia está a vir para aqui, Sergio”, disse Paula com uma calma aterrorizadora. “Mas antes de eles chegarem, vais perceber exatamente o que significa estar à mercê de outra pessoa.”
Nós não o espancámos até à morte — isso seria um presente demasiado piedoso para um monstro daquela laia. A verdadeira vingança foi muito mais fria, calculada e devastadora.
Arrastámo-lo pelos pés, semidesmaiado pela dor e pelo terror, até à cave escura e húmida da casa. Jogámo-lo no canto mais fundo, trancando a pesada porta de ferro com um cadeado triplo. Na parede oposta, havia uma pequena janela com grades que dava para o quintal exterior, e bem em cima, instalámos a câmara de vigilância que ele próprio lá tinha deixado escondida na mala de viagem.
Confiscaram-lhe o telemóvel, as chaves, a carteira e o carro. Destruímos todas as suas ilusões de poder, dinheiro e controle em menos de uma hora.
Nos dias seguintes, enquanto o processo judicial corria os seus trâmites legais e a imprensa começava a desvendar a rede de abusos e câmaras escondidas que ele mantinha, Sergio passou a provar do seu próprio remédio. Naquela cave escura, ele não recebia visitas, não tinha contacto com o mundo exterior e só lhe era permitido consumir exatamente o que ele próprio impusera a Reagan durante meses: um único copo de água por dia e, raramente, um pedaço duro de pão velho, atirado através das grades por Paula ou por mim, acompanhado de um sorriso gélido.
A cada gemido de súplica que vinha do escuro, a cada lágrima de desespero que ele derramava a pedir clemência, nós apenas encostávamos uma cadeira pesada contra a porta da cave, bloqueando qualquer esperança de fuga.
O agressor que achava que podia controlar vidas humanas acabou por definhar na sua própria paranoia, acorrentado ao medo que ele próprio semeara. E enquanto Reagan, pela primeira vez em anos, sorria sentada à nossa mesa de pequeno-almoço, comendo tudo o que queria sem precisar de pedir autorização a ninguém, nós sabíamos que a justiça não tinha apenas sido feita: tinha sido servida fria, amarga e perfeitamente retribuída.