O silêncio na sala de estar tornou-se tão denso e sufocante que o som do vento lá fora parecia um uivo de terror. Na tela da televisão, a imagem de Marianne piscava, mas a sua voz saía firme, limpa e assustadoramente serena — a voz de uma mulher que já tinha aceitado o próprio destino e transformado a sua dor na mais perfeita das armadilhas.
— “Se vocês estão vendo esta gravação”, continuou Marianne na tela, inclinando-se ligeiramente para a câmera, “significa que o laudo médico declarou que minha morte foi apenas ‘um acidente lamentável na escada’. Significa que o Ethan chorou lágrimas de crocodilo diante dos convidados e que a Camille já está usando as minhas roupas, as minhas joias e bebendo do meu vinho.”
Camille deu um passo trêmulo para trás, trombando contra o aparador de madeira. A xícara de porcelana caiu de sua mão, despedaçando-se no chão em dezenas de cacos pontiagudos.
— “Desliga essa porcaria!” — berrou Ethan, avançando descontrolado em direção à televisão. — “Essa mulher estava louca! Ela estava tendo surtos psicóticos antes de morrer! Isso não tem valor legal nenhum!”
— “Mantenha-se afastado do aparelho, Senhor Ethan”, ordenou o Doutor Sterling, sem alterar um único tom de sua voz. “Se o senhor der mais um passo, os oficiais que estão aguardando do lado de fora da propriedade entrarão imediatamente.”
Ethan parou no meio da sala, o peito arfando, os olhos arregalados transbordando um pavor primordial.
Na televisão, Marianne continuou, apontando para a tela com um olhar que parecia atravessar a alma de cada um dos presentes:
— “Mãe, eu sabia que eles estavam me envenenando aos poucos com doses diárias de sedativos colocados no meu chá. Eu comecei a sentir tonturas, lapsos de memória e fraqueza muscular. Mas quando percebi o plano cruel deles, já era tarde demais para salvar a minha vida sem colocar a Sophie em risco. Se eu os confrontasse abertamente, eles me matariam imediatamente e inventariam uma história qualquer para ficar com a custódia da minha filha e com cada centavo do meu patrimônio.”
A gravação na TV cortou abruptamente para uma sequência de vídeos gravados por câmeras ocultas que Marianne havia instalado secretamente por toda a casa.
A primeira cena mostrava a cozinha, duas semanas antes da tragédia. A imagem era límpida. Camille aparecia de costas, tirando um pequeno frasco de vidro do bolso do casaco e pingando gotas transparentes na xícara de café de Marianne, enquanto Ethan a abraçava pela cintura e beijava seu pescoço, rindo baixinho.
— “Tem certeza de que essa dose não vai deixar rastros no exame toxicológico?” — a voz de Ethan soava perfeitamente audível nos alto-falantes da TV.
— “Fique tranquilo, meu amor”, respondia Camille no vídeo, com um sorriso diabólico. “O composto se dissipa no sangue em menos de doze horas. Apenas fará com que ela pareça confusa, cansada… perfeita para parecer que tropeçou nos próprios pés e caiu da escada.”
— “Meu Deus…”, murmurei em choque, apertando minha neta Sophie contra o meu peito, enquanto as lágrimas finalmente rasgavam o meu rosto.
O horror instalado na sala era palpável. Camille estava pálida como um lençol, a boca aberta em um grito mudo.
— “Isso é armação! É inteligência artificial! Foi manipulado!” — gritou Camille, a voz totalmente histérica, apontando o dedo trêmulo para o advogado. — “Você não pode provar nada! Isso é uma calúnia nojenta!”
A imagem na TV voltou para Marianne, sentada em sua mesa de trabalho.
— “Vocês acharam que eram inteligentes, não é?”, disse Marianne, e pela primeira vez um sorriso frio e vitorioso apareceu em seus lábios na tela. “Acharam que ao me empurrar daquela escada na noite de 14 de agosto, ficariam com a casa, com a empresa, com o seguro de vida de três milhões de dólares e com a guarda da minha filha para usarem o fundo fiduciário dela. Mas vocês se esqueceram de um detalhe: eu construí tudo o que temos. Eu conheço cada brecha, cada contrato e cada podridão que vocês esconderam.”
Marianne olhou diretamente para a câmera e fez uma pausa dramática.
— “Quarenta e oito horas antes de vocês me matarem, eu transferi legalmente cem por cento das ações da empresa, a propriedade desta casa e todas as minhas contas bancárias para um fundo fiduciário irrevogável em nome da Sophie. A única administradora legal e guardiã desse fundo, até que minha filha complete vinte e cinco anos, é a minha mãe.”
Ethan empalideceu violentamente.
— “O quê?! Não! Essa casa é minha! A empresa é minha!” — ele urrou, perdendo completamente o controle.
— “A empresa está falida para você, Ethan”, continuou a voz imortal de Marianne na TV. “Todas as dívidas corporativas, os empréstimos bancários de alto risco e as fraudes fiscais que você e a Camille cometeram foram vinculados exclusivamente aos seus nomes e aos seus CPFs. Eu entreguei todas as planilhas paralelas e os comprovantes de desvio de dinheiro diretamente para a Polícia Federal e para a Receita. Neste exato momento, Ethan, você não possui um único centavo. Você não tem uma casa. Você não tem uma empresa. Você só tem dívidas milionárias e uma acusação de assassinato premeditado nas costas.”
Antes que Ethan pudesse reagir, a porta da frente da casa foi arrombada com um estrondo violento.
Quatro agentes da Polícia Civil, acompanhados por dois investigadores e pelo Promotor de Justiça do Estado, invadiram a sala de estar de armas em punho.
— “Ethan Robinson e Camille Lemaire! Vocês estão presos em flagrante por homicídio duplamente qualificado, envenenamento, fraude financeira e associação criminosa!” — anunciou o inspetor principal, sacando as algemas de aço.
O caos se instalou completamente.
Camille surtou. Em um gesto desespero e covardia, ela se virou para Ethan e avançou contra ele com as unhas, arranhando o rosto do amante.
— “Foi ele! Foi o Ethan quem me obrigou!” — ela gritava descontroladamente, chorando e babando de pavor. — “Ele disse que queria se livrar da mulher! Ele me prometeu o dinheiro! Ele me ameaçou! A ideia da escada foi toda dele! Me soltem, eu sou inocente!”
— “Sua vadia mentirosa!” — berrou Ethan, tentando se defender das unhas dela enquanto os policiais o derrubavam brutalmente no chão, prensando seu rosto contra o tapete caro da sala. — “Você me instigou a cada segundo! Você dizia que não aguentava mais esperar ela morrer!”
Ver aqueles dois monstros se destruindo, acusando-se mutuamente e rastejando no chão como vermes patéticos foi a visão mais gratificante e lavar a alma que eu poderia testemunhar.
Os policiais puxaram Ethan do chão, algemando seus pulsos para trás com força. Enquanto isso, outro agente prendeu os braços de Camille, que soluçava e gritava histérica, vendo sua vida de luxo e ganância desmoronar em segundos.
Enquanto os agentes a arrastavam em direção à saída, eu me levantei devagar da poltrona. Segurei Sophie firmemente com o braço esquerdo e caminhei com passos lentos e altivos até parar exatamente na frente de Camille.
A mulher tremia inteira. A maquiagem perfeita agora estava borrada pelo suor e pelas lágrimas de desespero.
Olhei bem fundo nos olhos dela. Depois, desviei o olhar para o pulso algemado dela, onde o bracelete de ouro de Marianne reluzia sob a luz do lustre.
Com extrema calma e sem pressa, estendi minha mão livre, desabotoei o fecho da joia e arranquei o bracelete do pulso de Camille com um puxão firme e decisivo.
Camille olhou para mim com os olhos arregalados, implorando por misericórdia com o olhar.
Eu me aproximei do ouvido dela, exatamente como ela havia feito comigo horas antes no funeral da minha filha. Senti o cheiro do suor frio de pavor que emanava da pele dela.
E então, com a voz carregada do mais profundo desprezo, sussurrei bem alto para que Ethan também escutasse:
— “Você disse que tinha vencido… Mas a minha filha jogou você e o Ethan no fundo do inferno antes de dar o último suspiro. Agora, o jogo acabou. E quem venceu fomos nós.”
Camille soltou um uivo de desespero enquanto era empurrada para fora da casa pelos policiais. Ethan tentava inutilmente olhar para trás, gritando pragas e nomes feios, enquanto era colocado no banco de trás da viatura sob os olhares chocados de toda a vizinhança e dos repórteres que começavam a se aglomerar na porta.
A porta da frente se fechou. O silêncio finalmente retornou à casa.
Na tela da televisão, o vídeo de Marianne estava prestes a terminar. A imagem da minha filha olhou para a câmera pela última vez. O rosto dela estava sereno, em paz, como se soubesse que a justiça tinha sido cumprida.
— “Mãe… cuida da minha menininha. Diz a ela todos os dias o quanto eu a amo. E viva a sua vida sem culpa, porque eu finalmente estou livre.” — Marianne sorriu, uma última lágrima escorreu pelo seu rosto na tela, e o vídeo se apagou para sempre.
Abaixei a cabeça e olhei para a joia de ouro em minha mão. Ajustei o bracelete no meu próprio pulso.
Minha neta Sophie mexeu-se nos meus braços, abriu os olhos devagar, olhou ao redor da sala vazia e depois olhou para mim.
— “Vovó…”, a vozinha doce dela murmurou, esfregando os olhos gordinhos. “Onde estão aqueles moços maus?”
Apertei minha neta contra o peito, beijei a testa dela com todo o amor que existia no meu ser e respondi com a voz mais calma e acolhedora do mundo:
— “Eles foram embora para sempre, meu amor… Nunca mais ninguém vai fazer mal a você nesta casa. A mamãe garantiu isso.”
Olhei para a janela da sala. O sol da tarde começava a rasgar as nuvens escuras que cobriam o céu. A mansão, a empresa, o futuro de Sophie e a honra da minha filha estavam salvos. Ethan e Camille passariam o resto de suas vidas miseráveis atrás das grades, consumidos pela culpa, pela pobreza e pelo ódio mútuo.
A vingança de Marianne não tinha sido rápida. Tinha sido cirúrgica, perfeita e devastadora.
E enquanto eu caminhava até o jardim para mostrar as flores à minha neta, soube no fundo do meu coração que, onde quer que Marianne estivesse, ela finalmente podia descansar em paz.